A pandemia do novo coronavírus trouxe efeitos devastadores para inúmeros segmentos da sociedade, sendo a indústria cinematográfica um dos mais atingidos — coisa que não se via (nunca se viu, aliás) desde a greve dos roteiristas de 2008. Com todos os cinemas fechados, Os 7 de Chicago entra no rol das produções “resgatadas” pelos serviços de streaming: da grande telona imediatamente migrou para a Netflix, apesar do breve período em cartaz no mês passado. Pois bem, a aguardada produção de Aaron Sorkin, cujo o trabalho é celebrado pelos grandes roteiros apreciados em Steve Jobs (2015), A Rede Social (2010) e boa parte da série The West Wing (1999 – 2006), é a chance de ele também se provar como diretor, mas será que o cara se sai bem?

Coincidência ou não, Os 7 de Chicago é baseado em fatos reais e retrata as icônicas manifestações contra a guerra no Vietnã, que chacoalharam o congresso do partido Democrata nos idos dos anos 60, resultando no indiciamento de 16 ativistas. Os atos não ganhariam grande relevância na história se não tivessem terminado da maneira mais violenta possível, indo de encontro com o movimento #BlackLivesMatters e o pandemônio que se forma em torno da fatídica corrida presidencial norte-americana de 2020. A partir de um estopim, muitas pautas são postas na mesa e é aí que a sociedade vislumbra suas mudanças.

Dentro da montagem, Sorkin mostra que sabe dar peso ao contexto e incluí ali tudo o que o espectador precisa para se guiar, mesmo se a pessoa não tiver afinidade com a história. As cenas factuais são mescladas com recortes reais das manifestações, e tomadas paralelas auxiliam na explicação de antecedentes, embora exista controvérsia em relação a certos “factoides” gerados deliberadamente para aguçar o teor dramático — o que pode ser um incômodo para historiadores e simpatizantes. O material original, por si só, já não é impressionante o bastante? Apesar dessa completude, é inegável que muita trama secundária foi ventilada na projeção e desenvolvida nas coxas, gerando assim sobrepeso para uma sequência que poderia ser mais enxuta e pontual.

Mas o grande percalço de Os 7 de Chicago é justamente a direção deselegante e persuasiva de Sorkin. Talvez por algum tipo de insegurança, o diretor espalha “iscas” dramáticas nos momentos mais poderosos do longa, como se fizesse de tudo para conquistar à força a comoção do público. O exemplo mais nítido disso, sem spoleirs, é a cena final, que conta com trilha melodramática e todo o tipo de clichê de filme de tribunal para comprar a catarse alheia, mesmo se tratando de uma história real. É de revirar os olhos.

Apesar do tropeço, o elenco é forte e rende grandes pérolas, algumas até mirando lá no Oscar.  Sacha Baron Cohen traz a melhor atuação do filme, muito por conta da essência do que foi visto em O Ditador e Borat. Apesar de ser um alívio cômico, sua presença nunca reduz o peso do filme e os toques sarcásticos enriquecem a narrativa. Yahya Abdul-Mateen II tem menos tempo tela, mas o suficiente para carimbar com louvor a luta dos panteras negras, sobretudo na condição em que ele é deixado no tribunal. Eddie Redmayne deixa a desejar com uma atuação mecânica e truncada, na contramão de Joseph Gordon-Levitt, equilibrando bem um bom advogado que facilmente poderia ser taxado de vilão, mas acaba apresentando mais camadas que sobressaem à obviedade. Por fim, Mark Rylance, apesar de assumir o manto do “advogado mocinho”, o faz muito bem graças ao excelente texto, e Frank Langella dá um espetáculo com a representação contraditória do juiz Julius Hoffman.

Embora munido de uma direção altamente formulaica e eloquente quando não deveria, Os 7 de Chicago ainda é um bom filme de tribunal que faz paralelos inteligentes com os movimentos atuais, podendo fisgar alguma coisa nas premiações graças a um elenco talentoso e diverso. Se é preciso revisitar o passado para entender o que ocorre nos dias atuais, o longa pode ajudar nisso.