Havia uma longínqua crença de que com a consolidação da internet, a era da desinformação, dos falsos mitos e das teorias baseadas nos contos-da-carochinha seria cessada de vez. Afinal, agora temos ferramentas confiáveis de pesquisa como o Google para checar se determinada informação é verídica ou não, por exemplo, certo? Sem contar as inúmeras comunidades em fóruns e redes sociais dispondo suas benesses quanto ao compartilhamento de conhecimento útil e agregador.

Mas o que vemos atualmente, em determinados setores da sociedade, é justamente o oposto: grupos de ódio a alguém ou a alguma causa/ideologia tomando conta de mensageiros instantâneos, enxurradas de fake news que miram difamação ou esculhambação da imagem pública alheia, levantes populares pilarizados nas maiores groselhas e atrocidades possíveis, revisionismo histórico e por aí vai. Compilando tudo isso em abordagem didática e contundente, o novo longa original polonês da Netflix, Rede de Ódio, é um cult instantâneo e possivelmente uma das melhores obras a abordar esses fenômenos. Pode ser aquele filme a ser exibido em aulas de história, política, redes sociais ou em qualquer área que envolva o assunto.

Após ser expulso da universidade por plágio, Tomasz passa a trabalhar em uma agência de marketing digital que opera no estilo “gabinete do ódio”, isto é, gerando contas falsas para promover manipulação, difamação e extermínio de reputações — desde influencers a figuras ligadas à política polonesa. Entre uma maracutaia e outra, as ações vão levando Tomasz a percorrer caminhos obscuros e tortuosos, onde há graves reflexos na sociedade, sobretudo por incitar movimentos extremistas com consequências sem precedentes.

O diretor Jan Komasa, mesmo responsável por Corpus Christi — que tem alguma ligação espiritual com o seu projeto mais recente —, consegue escalonar com primazia a “molecagem” e as tutelas que configuram um primeiro ato mais despojado e tutelar, com direito a romance, jantares em família e neon em balada. No entanto, a coisa vai descambando após a sua contratação pela agência criminosa Best Buzz. Daí em diante é spoiler, porém é possível adiantar que a atmosfera sofre uma guinada completa e Tomasz se vê na “jornada do herói” reversa, ao melhor estilo O Poderoso Chefão dos tempos atuais. Sua ascensão no meio digital traz um clima sombrio e obscuro na trama, chocando a cada ação realizada e gerando comparações imediatas com tudo o que acontece aqui, no mundo atrás da tela. Mesmo com excessos e situações artificiais, o desenrolar da trama choca, prende e intriga minuto a minuto.

 

Maciej Musialowski está irretocável no papel de Tomasz e dá um show de interpretação com um personagem frio, metódico, misterioso e que não mede esforços para executar suas barbáries. Um dos quesitos que mais chama atenção nele é o semblante medonho que esconde uma personalidade cruel e patológica. Mas o diferencial está justamente em ocultar isso, revertendo-se em alguém aparentemente razoável, gentil e convencional. Trabalho que merece reconhecimento. Vanessa Aleksander se destaca mais na primeira toada como interesse amoroso do protagonista, mas, devido às decorrências da trama, acaba sumindo no ato central e só retorna lá na frente, para um desfecho chocante. Também vale destacar as interpretações de Agata Kulesza, CEO da agência que consegue reter nosso ódio com facilidade dadas as suas perversidades, e o militante extremista encarnado por Adam Gradowski, assustadoramente crível, temeroso e muito próximo do que vemos há anos em episódios tristes de terrorismo global.

Didático e atual, Rede de Ódio é indispensável para compreender como a internet pode se transformar em uma máquina de distorcer realidades e provocar a escalada do extremismo e do ódio. Uma dolorida e valorosa lição para alertar sobre os males de um meio digital com capacidade de transformar completamente a história da nossa história como sociedade civilizada.