As histórias e controvérsias da guerra do Vietnã sempre renderam excelentes debates dentro da sétima arte, eternizando clássicos que são rememorados em qualquer rodinha de bar. Apocalipse Now, Platoon, Nascido para Matar, Bom Dia, Vietnã… a lista vai longe e recomenda-se cada um deles, especialmente por tocarem na ferida de inúmeras questões que representam tabus até hoje. É nesse mesmo levante que vem Destacamento Blood, o novo filme original da Netflix, que já nasceu cult.

Paul, Eddie, Otis e Melvin formam um grupo de ex-combatentes afro-americanos que, após décadas, retornam ao Vietnã para buscar a ossada de seu líder, Norman, e um antigo tesouro que eles haviam enterrado. Mas essa jornada vai muito além do material e acaba se tornando um meio de autorredenção, além de outros desdobramentos que interferem em seus itinerários.

A direção é de Spike Lee, nome que dispensa apresentações, colecionando inúmeras obras de peso em seu portfólio, com destaque para Malcolm X, O Plano Perfeito, Oldboy e o mais recente Infiltrado na Klan. Sempre muito enfático tocando em pontos raciais e valorizando a cultura negra. Em Destacamento Blood não é diferente. Lee também assina o roteiro juntamente com Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott.

O cartão de visitas estético do longa não esconde suas referências a Apocalipse Now. O helicóptero sobrevoando rente ao sol é o traço mais familiar possível. E há uma transição muito inventiva que adapta a proporção da tela aos clássicos 16:9, quando a narrativa se faz no passado.

Além do formato, a direção emula o áudio e as cores extremamente contrastantes das filmagens da época. Só temos o widescreen quando a história retoma à atualidade. Muito além da luta armada em meio à selva, entretanto, o que difere Destacamento Blood de outras obras do gênero é o resgate histórico de uma etnia que era posta como “bucha de canhão” (linha de frente, postos para morrer) no combate, em uma época na qual um branco, que tivesse condições de estudar em uma faculdade, não precisava trocar o livro por um fuzil. Sob esse escopo, Lee consegue demonstrar que o preconceito era (e ainda é) fruto de uma política escancaradamente racista e hostil.

Fotografias, vídeos e áudios reais de Martin Luther King Jr., o Partido dos Panteras Negras, movimentos estudantis, entre outros, concatenam com a narrativa e enriquecem o aparato histórico.

Nas atuações, quem se sobressai é Delroy Lindo (This Is Us e o Chamado do Mal). Seu personagem entrega muitas camadas pessoais, atrai amor e ódio do público e assina dois monólogos que são, no mínimo, deslumbrantes, dignos de serem emoldurados em quadros. Clarke Peters (His Dark Materials e Três Anúncios para um Crime) é o contraponto, a persona do equilíbrio e traz uma das cargas mais dramáticas e densas do longa. Chadwick Boseman (Pantera Negra e Crime Sem Saída) tem como função contextualizar o passado e hastear a bandeira anti-racismo, enquanto Jonathan Majors (The Last Black Man in San Francisco e A Rebelião) atravessa as situações mais reflexivas diante de comportamentos questionáveis, como se incorporasse espectador à trama.

Em um momento da história no qual existe luta por igualdade e reconhecimento nas ruas, Destacamento Blood é um grande aliado na valorização de quem lutou no passado e não recebeu o holofote que merecia, por conta da sua cor. Opção mais que obrigatória para o assinante da Netflix e, desde já, um cult instantâneo, que com certeza será debatido por anos e anos, servindo também para lembrar que vidas negras importam.