Os entusiastas de filmes de ação tiveram uma grata surpresa no final de abril na Netflix: a adição de Resgate, estrelado por Chris Hemsworth e roteirizado pelos irmãos Russo. Não por menos, o longa é um primor em coreografia, técnica e efeitos práticos. Felizmente, ficou uma deixa para um próximo. Mas para não amargar o hiato entre os lançamentos, The Old Guard — novo original baseado na HQ homônima escrita por Greg Rucka e ilustrada por Leandro Fernandéz — entra no rol dos pontapés para grandes franquias e reforça o time de blockbusters da empresa de streaming.

A produção introduz Andy (ou Andrômaca), Nile, Booker, Nicky e Joe. Eles formam um grupo paramilitar que tem um dom em comum: a imortalidade. Com exceção de uma novata, os demais membros carregam séculos de vida e buscam proteger a humanidade em crises humanitárias. A vida eterna, no entanto, é cobiçada por grandes corporações que desejam lucrar com a descoberta e tirar vantagens a partir de métodos científicos nada éticos.

Quem dá vida à adaptação é Gina Prince-Bythewood, mesma autora do primeiro episódio da série Manto e Adaga, da Marvel, e igualmente responsável pelos longas Nos Bastidores da Fama e A Vida Secreta das Abelhas. Agora, com The Old Guard, seu nome entra em voga em Hollywood.

Vale advertir que o texto não se baseia em comparações com os quadrinhos, mas talvez o maior pecado do longa é cair na mesma ânsia de produções que buscaram comprimir grandes histórias em pouco mais de duas horas. Quer dizer, você é apresentado a personagens seculares de modo completamente superficial, sendo que o fator “imortalidade” demanda uma apreciação histórica mais aprofundada para se ter o peso do tempo, além de uma discussão mais complexa sobre questões morais que envolvem a condição.

Os flashbacks vislumbram recortes insuficientes e geram um primeiro ato aguado e que oferece apenas o básico do básico ao espectador. O percurso tortuoso só é interrompido graças à cereja desse bolo, que é o quesito ação. As cenas são exemplarmente bem dirigidas e empolgam de modo geral, mesmo na simplicidade. A boa direção de fotografia de Barry Ackroyd também é um recurso que realça toda a estética, com locações desérticas e europeias. Não é de se surpreender: o trabalho contém o selo de qualidade da Skydance Productions, mesma empresa envolvida em Missão Impossível e O Exterminador do Futuro.

Charlize Theron, de praxe, entrega cenas de ação empolgantes e bem coreografadas (Reprodução/Netflix)

Além da estética, Gina Prince-Bythewood acerta no elenco, ao menos no time dos mocinhos e mocinhas. Charlize Theron dispensa apresentações e só acentua sua versatilidade para interpretar qualquer papel que cair sobre sua mesa. A atriz novamente faz pouco uso de dublês e entrega cenas de ação inventivas e empolgantes. Boa parte do filme orbita sobre sua presença. Já Kiki Layne (Se a Rua Beale Falasse) consegue ser carismática como novata da equipe e oferece potencial evolutivo, apesar das péssimas resoluções para os seus dilemas morais. Esse mesma impressão se estende a Matthias Schoenaerts (Operação Red Sparrow), que traz um personagem interessante, mas subaproveitado por conta de rumos narrativos inconsistentes e até mesmo questionáveis. Já Marwan Kenzari (Aladdin) e Luca Marinelli (Uma Questão de Tempo) são o casal do time e têm química imediata para encantar os fãs. Uma pena que igualmente mal explorados.

Por fim, o lado antagônico é somente um amontoado de clichês, abreviando-se a Chiwetel Ejiofor (O Rei Leão), o pesquisador que não é necessariamente um vilão, mas acaba desvirtuado por falsas promessas e ambições precipitadas. Estas feitas por Harry Malling (saga Harry Potter), o esteriótipo carimbado de qualquer antagonista vilanesco da maioria dos filmes de ação.

Em um período pandêmico marcado por suspensão de salas de cinema, The Old Guard é uma excelente opção para quem sente falta de assistir grandes produções nas telonas. A narrativa é genérica e pincelada, mas apresenta potencial para evoluir em uma continuação e diverte com cenas de ação bem executadas, sobretudo por contar com a sempre marcante contribuição de Charlize Theron. Espera-se reparos, mas, para todos os efeitos, uma continuação é muito bem-vinda.