Assinantes de TV a cabo que estão acostumados a assistir produções de canais como Lifetime e Showtime sabem que os dramas novelescos são marcas carimbadas deles. Esse filmes têm características bem claras: locações domiciliares, baixo orçamento, dramas envolvendo famílias e a uma hora e meia de duração, no máximo. Típico entretenimento para quem gosta de ‘zapear’ com o controle remoto. Em nova parceria, a Netflix inaugura a categoria com o original Encontro Fatal, que, não precisamente, traz alguma inspiração em Atração Fatal, lá de 1987, mas com diferenças criativas adaptadas ao seu tempo e custo mínimo.

A trama nos apresenta à Ellie, uma advogada bem-sucedida na vida profissional e familiar. Ela tem a casa dos sonhos, o marido perfeito, a filha prodígio, prosperidade no trabalho, e tudo o que há de bom. Mas essa plenitude é abalada com a chegada de um antigo colega de faculdade, David, que demonstra um amor obsessivo pela protagonista e inicia uma saga de perseguição a todos que estão a sua volta.

A direção é de Peter Sullivan, já veterano na plataforma com o suspense Obsessão Secreta (coincidência?). Ele também carrega em seu portfólio Cucuy: O Bicho-Papão e O Voo de Natal. Ou seja, é uma pegada com foco majoritariamente voltado para a TV, com trabalhos que carregam doses generosas de clichês e cliffhangers exagerados. Tem quem ame, não é mesmo?

Em Encontro Fatal, nada muda. Já de início nos confrontamos com uma trama extremamente familiar de thriller sobre amor doentio gênero paulatinamente explorado ao longo das décadas no cinema. Um Corpo que Cai, Garota Exemplar, Assédio Sexual, Lolita, O Cara Perfeito… A lista vai longe e, por existir esse grande acervo, espera-se diferenciais na produção da Netflix, o que inexiste. Aqui é tudo muito básico e escalonado de forma apressada. Isto é, a progressão do conflito é uma sobreposição de clichês e insere os personagens em situações forçadas, construídas pela metade e que questionam a complexidade daquilo. Será que uma ligação para a polícia lá no começo já não resolveria o conflito? É daí para baixo em plots baratos, previsíveis e caricatos.

Além da curta duração, outro fator consideravelmente positivo de Encontro Fatal é o elenco competente, de alguma modo, que se esforça para que o longa não seja um completo porre, apesar de ser. Nia Long (Um Maluco no Pedaço, Vovó Zona e NCIS: Los Angeles) volta a contracenar com Omar Epps (This Is Us, O Atirador e House). Seria um duo qualquer se não fosse pelo fato de eles estarem fora de suas zonas de conforto da comédia, desempenhando papéis razoáveis no drama. Convencem, sob muito receio, dentro de limitações narrativas, desdobrando-se a Stephen Bishop (Criminal Minds e Imposters), Maya Stojan (Case 347 e Agents of S.H.I.E.L.D.) e a novata Aubrey Cleland, com participações meramente mecânicas e objetivas.

Fruto de parceria com canais de TV a cabo, Encontro Fatal traz suspense fatigante permeado por situações artificiais e personagens rasos, não convencendo nem mesmo no desfecho do mistério, que é risível e preguiçoso, podendo até mesmo render algumas risadas. Apesar disso, dupla que carrega o filme merece algum desconto (vai), por estarem minimamente convincentes dentro de tantas limitações. Certamente há opções mais atrativas do gênero dentro da plataforma.