Espetáculo "Vamos fazer nós mesmos" na mostra oficial do Festival de Curitiba (Foto: Kelly Knevels/ Divulgação)

Falar de altruísmo tem grande chance de soar como hipocrisia quando o discurso de preocupação com o outro não se traduz em atitudes. Este erro o coletivo holandês Wunderbaum nao cometeu ao idealizar o espetáculo, “Vamos fazer nós mesmos – Let’s Do It Ourselves”, apresentado na mostra oficial do Festival de Curitiba com a participação de 15 pessoas que fazem trabalho voluntário na cidade.

Cinco atores brasileiros se unem aos holandeses em uma espécie de show punk que embala o público em um divertido exame de autoconsciência. Entre uma cena e outra, uma música e outra e muitas gargalhadas do público, surgem momentos de silêncios onde se encaixa a reflexão sobre a necessidade iminente de uma sociedade mais participativa.

“Alguém aqui acha que é dever do estado cuidar da nossa segurança? Alguém aqui já disse a frase bandido bom é bandido morto? Alguém aqui tá morrendo de vontade de dar um soco na cara de alguém? Alguém aqui pensa: “ah, já tem muita gente ajudando. Eles não precisam de mim.”? Estes são alguns dos questionamentos feitos aos presentes, que precisam levantar a mão em caso afirmativo.

Assista ao teaser da peça:

Participação é a palavra-chave do espetáculo. E o que chama atenção de cara é a presença dos 15 voluntários previamente selecionados pelo grupo. No início da peça, o elenco os apresenta em uma cena musical coreografada. Conhece-se o nome de cada um deles e também o trabalho voluntário e local onde o desempenham. Cenas interessantes, como a a da disputa entre cowboys são protagonizadas pelos voluntários.

Também são convidados para subir ao palco, duas pessoas da plateia. O primeiro critério de seleção é a resposta a duas perguntas. Entre os que levantam a mão, a escolha para se juntar ao coletivo é aleatória. E foi assim, por ter a carteira de trabalho assinada, que fui parar em cima do palco, juntamente com Kaue, que subiu por não ter carteira assinada.

Voluntários e público entram em cena no espetáculo “Vamos fazer nós mesmos”(Foto: Kelly Knevels)

Fomos bem recebidos (com dois copos de gin tônica) e devidamente acomodados. Nossa função era rodar uma roleta que determinaria quais temas dariam origem a cenas seguintes. Mas também cantamos, dançamos, interagimos com os atores e voluntários e nos sentimos parte daquilo tudo.

No fim das contas, entre tantas reflexões, o que mais me marcou nesta peça foi a percepção de que sermos generosos e atentos ao próximo pode nos permitir experiências ricas e potentes. Se podemos fazer nós mesmos um espetáculo teatral, por que não podemos também fazer um mundo melhor?

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