Pantera Negra não tem sido encarado como só mais um filme de super-heróis. Desde que foi anunciado o lançamento desse blockbuster da Marvel, ele se transformou em pauta tanto nas editorias de cultura, como de comportamento.

Afinal, trata-se da primeira produção do gênero cujo elenco é majoritariamente negro e de um herói que surgiu em 1966, quando a luta por direitos civis eclodia nos Estados Unidos.

No entanto, o personagem não é dos mais populares da produtora de HQs e nunca teve o destaque de heróis como Homem de Ferro, por exemplo. Mas sua aparição em Capitão América: Guerra Civil, em 2016, foi uma forma da Marvel introduzir o Pantera Negra para a nova geração e explorá-lo como um protagonista no futuro.

Dois anos depois, ele tem um filme próprio, que traz uma linguagem e uma ambientação completamente diferente de tudo que a empresa havia feio nos cinemas até aqui. E o resultado é bastante animador.

A produção já é uma das mais bem-sucedidas da Marvel. No total, o filme dirigido por Ryan Coogler soma US$ 426,6 milhões em bilheteria, superando o que Capitão América, o primeiro Vingador (2011) e Hulk: o Homem Incrível(2008) somaram em todo o tempo em que ficaram em cartaz. E tudo isso com um roteiro repaginado e conectado com assuntos atuais, como racismo e imigração. É político, mas sem deixar de ser entretenimento de massa.

‘Pantera Negra’ lidera bilheteria no Brasil em semana de estreia

Lucro x Lacre

Contudo, o lucro aliado a questões de representatividade deixam os fãs do personagem divididos. Enquanto há quem acredite que o filme pode, sim, ser importante para criar toda uma geração de consumidores jovens que se identificam com um personagem que também é da sua mesma cor, outros ressaltam que é preciso fazer ressalvas quanto ao papel do filme como assunto que ganha força no meio da militância.

Segundo o estudante de História Everson Pureza, as lutas das minorias tem ganhado destaque na mídia, tanto com abertura para debates a respeito das opressões, quanto na questão da representatividade. Para ele, os atuais movimentos que reivindicam as lutas de minorias dão grande importância à representatividade no sentido cru e literal, fazendo relação imediata com a noção de empoderamento.

‘Entretanto, a simples ocupação de espaços por quem sofre com as grandes discriminações, como o racismo, não é capaz de gerar resultados concretos para os seus iguais no resto da sociedade. Posso trazer como exemplo Barack Obama sendo presidente dos EUA. A sua presença como negro não foi capaz de diminuir o racismo. Os inúmeros casos de genocídio da juventude negra durante o governo dele mostram claramente isso’

Paula Albuquerque, que estuda Geografia, alerta para que não haja domesticação da luta por representatividade e nem acomodação a partir da representatividade na indústria cultural.

‘Não precisamos nos contentar só porque hoje se produz filmes que nos mostram se podemos produzir nossas próprias narrativas, contar nossas próprias histórias. Não basta reformar uma indústria milionária em que brancos continuam dominando, ao mesmo tempo que aprenderam uma forma de vender seus produtos pra minorias’.

Influência e mercado

Sempre atenta às questões sociais, a Marvel nunca deixou de retratar em seus quadrinhos o que acontece no mundo. Foi assim quando introduziram o drama do vício das drogas em uma história do Homem-Aranha e Demolidor nos anos 70. E o próprio Pantera Negra, criado em 1966, refletia o fervor dos movimentos sociais e raciais da América. E não poderia ser diferente quando fosse levado aos cinemas em 2018. Com a militância ativa que existe hoje nas redes sociais, novamente um produto da gigante do entretenimento aponta para esse lado.

Para o jornalista e colecionar de HQs Tom Rocha, isso é tão importante quanto o lucro que o filme irá atingir com produtos licenciados, como bonecos, caneca e roupas. Para ele, o essencial é que a jovens tenham um herói que os representem.

‘Pantera Negra é feito para vender brinquedo, lancheira, salgadinho, bonequinho, é disso que qualquer empresa de entretenimento para crianças vive, e com a Marvel não é diferente. Mas imagino muitas crianças felizes em ver heróis com a mesma cor de pele nas telas. Na infância, os amigos negros “encarnavam” qualquer herói nas brincadeiras, como deve ser, aliás, mas é inegável o poder que o visual tem sobre as crianças. Ter uma referência concreta e sem concessões disso, tem poder e significado’.

O professor de Inglês Thiago Ramos Souza admite que, inicialmente, não conhecia o personagem e pensava que era apenas uma “lacração” esvaziada de sentido da Marvel. Mas mudou de opinião após perceber o impacto do filme mundialmente.

‘Tive uma mente moldada pelo racismo à minha volta. Mas as crianças dessa geração pra frente não vão mais ver o mundo dessa forma. Finalmente alguém decidiu mudar a linha de raciocínio, o discurso de que tudo o que nós somos é nada. E é assim que eles vão ver, daqui pra frente. Finalmente a ficção decidiu nos dar um mundo fantástico, da mesma classe que o Batman, o Homem de ferro, o Arqueiro verde, só que um pouco mais rico’.

A observação encontra nas palavras do co-roterista de Pantera Negra, Joe Robert Cole. Ele diz em entrevista ao The Guardian que esse é o filme que gostaria de ter visto quando era criança, época também em que ele mudava a cor dos seus heróis favoritos e o transformava em negros.

‘Tanto para meu filho quanto para minha filha, este é um filme cheio de homens e mulheres de cor, pessoas que são autodeterminadas. Estou muito orgulhoso disso e ansioso para eles verem o filme’.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, já existem campanhas para ajudar levar crianças negras e pobres para ver o longa-metragem nos cinemas.

Em Porto Alegre, uma campanha realizada via Facebook possibilitou a presença de 100 jovens numa das sessões de Pantera Negra. O professor Thiago Ramos Souza enxerga em tudo isso um pontapé para uma nova fase.

‘Pantera Negra é mais um passo pra esse mundo equilibrado, onde as pessoas não se medem, mas, ao invés disso, se respeitam. Onde é possível olhar para todos como iguais. O mundo em que nossos bisavós queriam ter vivido, finalmente está às portas’.

E você, já viu Pantera Negra nos cinemas? Confira nossa Review!

Do R7