Em 2016, quando Jô Soares anunciou que iria parar de fazer seu programa de entrevistas na Globo, a pergunta era: ‘Quem será o substituto de Jô?’

Despontavam ali Fábio Porchat, estreando na RecordTV, Pedro Bial, ocupando oficialmente a vaga de Jô na Globo e Danilo Gentili, já na batalha no SBT.

Por cavalheirismo ou contrato, Jô foi primeiramente ao programa do novo inquilino no horário, Pedro Bial. Deu uma linda entrevista ao jornalista, livrando-o do estigma de ‘ladrão’ da vaga.

Mas, só dois anos depois, mais precisamente ontem (18), Jô Soares passou o bastão.

E o fez com Fábio Porchat, menino que ele ‘revelou’ aos 18 anos em seu programa na Globo, ao dar uma oportunidade ao então jovem estudante de marketing fazer uma ‘apresentação’ de última hora na TV.

Naquele momento, Jô não só aceitou o bilhetinho do Porchat pedindo uma canchinha no ar, como lhe mostrou o mar. Nasceu ali, como o próprio contou, o Fábio Porchat roteirista, humorista, ator, apresentador, showman.

Ao ver o cara que lhe abriu a ‘porta da esperança’ há quase duas décadas sentado ali, para ser entrevistado em seu programa, Porchat desmontou. O filme que passou em sua cabeça era intenso, real e com final feliz.

Acostumado a fazer rir, o humorista fez o público chorar. Chorou sem vergonha, com direito a gagueira e pedido de desculpas por se descontrolar no ar. Poucas vezes o choro de um artista vem assim, da alma, sem sensacionalismo barato, sem forçação de barra. Era o choro de um menino.

Jô estava em casa. Falando palavrões, contando causos e casos da vida pessoal, da carreira, de amigos, revelando planos para o futuro. Brincou com a plateia como fazia em seu programa. Tocou com banda do programa como fez por anos com o Sexteto.

Quem fechasse os olhos poderia até ouvir a risada do Bira.

Porchat deixou o mestre prosear. Interrompeu poucas vezes as histórias que o ‘professor’ contou com riqueza de detalhes de uma biografia.

Jô falou de política, imitou o Lula, contou peripécias que fez ao lado de Golias e Carlos Alberto de Nóbrega, das desavenças com Chico Anysio. Falou das ex-mulheres, da mãe… Se emocionou ao lembrar dos horrores da ditadura.

Demonstrou a gratidão genuína que tem por Silvio Santos e pela Record, onde começou lá trás, na genial “Família Trapo”.

Em momento ‘coração quentinho’ da gravação, Porchat chamou o humorista Paulo Vieira, que divide o palco com ele, para ser ‘entrevistado’ por Jô.
Minutos antes de Jô Soares chegar, Paulo havia lamentado que não teria mais a chance de ser entrevistado pelo melhor de todos. Afinal, o “Programa do Jô” acabou.

O humorista que veio lá do Tocantins chorou ao se sentar ao lado de Jô, que generosamente topou a brincadeira, e fez algumas perguntas.

Nos bastidores, câmeras e produtores enxugavam as lágrimas. Era o Paulo, o moço simplão e talentoso tão amado por todos do programa que estava lá, sendo ‘entrevistado’ pelo Jô. Haviam ‘sacaneado’ ele pedindo para se arrumar mais ‘chique’ no dia, colocar uma lapela para ver o Jô. Paulo nem imaginava a surpresa. Até quem sabia chorou.

Era a ‘equipe’ incluída na volta ‘com emoção’ da grande atração do Parque do Porchat.

A audiência foi boa, com prévia de 4,7 pontos. E hoje (19) tem mais uma parte do papo, que durou mais de duas horas com tudo isso e muito mais.

Vale ver o que não foi só uma entrevista especial. Foi a prova que esse mundão dá voltas gratificantes.

E gratidão não pode ser cobrada. Mas dá para medir o quão feliz é um homem pela profundidade de sua gratidão.

O menino do ‘bilhetinho’ disse ontem que aquele era o ‘dia mais importante’ de sua vida.

Ao término do programa, Jô deu um abraço forte em Porchat e disse para quem quisesse ouvir: “É por isso que não faço mais programa. Agora tem ele…”.

Se isso não é passagem de bastão, não sei o que é. Agora é pegar o bastão e: “Run Porchat, run!”

Do R7